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O homem na cidade

por seila, em 22.09.15

 É mais um dia que nasce.

Igual ao de ontem e a tantos outros.

Levantam-se as pessoas. Movimentam-se em gestos rotineiros. Apressam-se.

É preciso encarar a luz que o dia já começou.

A idosa ainda de robe, passeia pela trela o seu quebra solidão.

O passeio fica sujo.

Nas ruas há buracos. O semáforo que não abre… que desespero!

Os transportes cruzam-se. Um empurrãozinho e cabe sempre mais um.

Hoje não vai chover.

A avenida está bonita com os seus canteiros floridos. Lembra o arco iris. As árvores já se vestiram de verde.

Os bancos estão vazios agora. No desconforto da noite foram cama dos sem-abrigo.

Cada vez nascem mais ao invés da natalidade infantil.

Há um suspiro solto.

Os prédios fecham-se no luxo das marcas que ninguém consegue comprar.

Mas elas estão lá!

Estacionamento. Está cheio. É preciso encontrar um lugar.

As lojas abrem as portas.

Tudo funciona.

A cidade acordou.

Um café. É urgente um café. O encontro com a energia ou a força do hábito.

Nos empregos que escasseiam, apontam-se dedos, dão-se palmadinhas falsas nas costas.

No topo das empresas, desenrolam-se os negócios, nem sempre inteligentes, em cima de ordenados topo de gama.

Nos ministérios não se governa, inventa-se a melhor forma de extorquir um pouco mais.

Na Assembleia da República, discute-se, há acusações que nunca se provam e insultos “civilizados”. No final, tudo fica na mesma. Amanhã será um dia igual.

Que pena! É um edifício tão bonito. Deveria transpirar dignidade.

E a polícia guarda-a dos intrusos, como se não devesse ser pertença de todos.

O relógio faz as horas passarem.

E de tudo quanto é edifício laboral saem pessoas em grupos, sozinhas.

Os restaurantes, as pastelarias, as casas de fast food, acolhem os visitantes numa hora de azáfama intensa. Um garoto toca no braço de um senhor e pede-lhe uma sandes. O empregado apressa-se a pô-lo fora.

Por fim as casas de pasto esvaziam-se e as formiguinhas recolhem aos buracos de onde saíram, silenciando-se.

É outra parte do dia que se inicia. A tarde e a ansiedade de finalmente chegar o tempo da liberdade.

E tudo recomeça no sentido inverso.

A cidade fervilha durante horas impacientes.

Nos arredores da cidade vão-se gradualmente acendendo as luzes das casas.

É preciso fazer o jantar, dar banho às crianças, dar-lhes um pouco de atenção brincando ou ajudá-las nos deveres da escola.

Lá fora escureceu. Chegou a hora de um pouco de liberdade assente no sofá.

Traduz-se nisso a liberdade?

Nas ruas, o trânsito já escasseia.

Aqui e ali as luzes nas casas começam a esconder-se.

A noite instalou-se.

A cidade adormeceu.

 

Seilá, 23 de Maio de 2015 

 

 

https://youtu.be/lbSOLBMUvIE 

 

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publicado às 16:58



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